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terça-feira, 23 de março de 2010

Tire-o da cabeça por Martha Medeiros



Você estava apaixonado por alguém e levou um fora. 
Acontece mais do que acidente de avião, desastre com romeiros e incêndio na floresta. Corações partidos é o grande drama nacional. 
O que fazer? 
Ainda não lançaram um manual de auto-ajuda que consiga eliminar nossa fossa, e dos amigos só podemos esperar uma frase, repetida à exaustão: tire esse cara da cabeça. 
Parece fácil. 
Mas alguém aí me diga: como é que se tira alguém de um lugar tão cheio de mistérios?
Gostar de alguém é função do coração, mas esquecer, não. 
É tarefa da nossa cabecinha, que aliás é nossa em termos: tem alguma coisa lá dentro que age por conta própria, sem dar satisfação. 
Quem dera um esforço de conscientização resolvesse o assunto: não gosto mais dele, não quero mais saber daquele prepotente, desapareça, um, dois e já!
Parece que funcionou. 
Você sai na rua para testar. 
Sim, você conseguiu: olhou vitrines, comeu um sorvete e folheou duas revistas sem derramar uma única lágrima. 
Até que começa a tocar uma música no rádio e desanda a maionese. 
Você não tirou coisa alguma da cabeça, ele ainda está lá, cantando baixinho pra você.
 
Táticas: 
** Não ficar em casa relendo cartas e revendo fotos. 
Descole uma festa e produza-se para matar. 
Você bem que tenta, mas nada sai como o planejado. 
Os casais que se beijam ao seu lado são como socos no estômago. 
Você se sente uma retardada na pista de dança. 
Um carinha puxa papo com você e tudo o que ele diz é comparado com o que o seu ex diria, com o que o seu ex faria. 
Chamem a EccoSalva.
** Livros. 
Um ótimo hábito, mas em vez de abstrair, você acha que tudo o que o escritor escreve é para você em particular, tudo tem semelhança com o que você está vivendo, mesmo que você esteja lendo sobre a erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia.
** Viajar. 
Quem vai na bagagem? Ele. 
Você fica olhando a paisagem pela janela do ônibus e só no que pensa é onde ele estará agora, sem notar que ele está ali mesmo, preso na sua mente.

Livrar-se de uma lembrança é um processo lento, impossível de programar. 
Ninguém consegue tirar alguém da cabeça na hora que quer, e às vezes a única solução é inverter o jogo: em vez de tentar não pensar na pessoa, esgotar a dor. 
Permitir-se recordar, chorar, ter saudade. 
Um dia a ferida cicatriza e você, de tão acostumada com ela, acaba por esquecê-la. 
Com fórceps é que a criatura não sai.

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